Bruxaria Tradicional Para Iniciantes

Na mais absoluta realidade, os bruxos ‘não wiccanos’, tradicionais só saíram do armário depois de Gardner, antes disso não precisaram levantar qualquer bandeira para chamar a atenção sobre si. Neste aspecto, Gardner foi fundamental, assim como havia sido Crowley, um âmbito mais amplo, social, mais do que religioso ou mágico. Bruxos nunca estiveram ligados a movimentos separatistas, quando passaram a se unir sob o rótulo “Bruxaria Tradicional” tiveram o propósito único de não deixar certas práticas regionais – culturais - morrerem. ‘Bruxos’ nunca se uniram para cair na armadilha de ‘destruir a oposição’, que faz nada mais do que afirmar seus valores.

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8 de fevereiro de 2011

Entrevista Doreen Valiente

Por Michael Thorn, em 1991.
Tradução: Ana Cristina Teixeira.

Fhireheart: Devo dizer que você não é o que eu esperava ver pela fotografia do livro The Rebirth of WitchCraft. Parece mais velha na fotografia e com um ar mais gasto, na realidade é bastante mais nova cheia de vida e com muito bom aspecto...

Doreen Valiente: Bem, devo dizer que nessa altura estava muito mais decrépita. Agora tenho-me sentido bastante bem, mas estive absolutamente derrotada com artrite. O problema é que quando nos ataca, não há muito que se possa fazer. Os médicos querem-nos por sob o efeito das mais variadas drogas, que têm um pior efeito em nós, mais do que a própria artrite, e eu sou bastante cética quanto a tomar esse gênero de drogas. A única coisa que encontrei e com a qual me dei bem foi um ungüento feito de ervas. Faz-me bastante bem, o problema é que empesta toda a casa com o cheiro.


Fh: Às vezes os melhores remédios são bastante desagradáveis, como, por exemplo, o óleo de fígado de bacalhau...

DV: Custava-me empanturrar com isso quando era pequena. Eu não acredito que me tenha feito a mais pequena diferença, e tenho a certeza que era bastante mau para o frio. A artrite é bastante limitativa. Quando se tem artrite não há nada a fazer. Só poderá tentar manter-se quente. Ás vezes metesse nas articulações dos dedos das mãos o que torna a escrita bastante dolorosa. As pessoas não sabem o que é quanto não sofrem com ela. É provavelmente a combinação da velhice com a perversidade.


Fh: Se calhar é Karma ou a lei do Retorno e eles dirão "Iremos retribuir-lhe de uma forma ou de outra".

DV: Eu não acredito nisso da Lei do Retorno, sabe. Sempre fui muito cética em relação a isso, mas eu sou muito mais cética agora do que era antes. Á medida que vou envelhecendo vou me tornado mais cética ainda. Eu já não acredito em coisas que acreditava antes.


Fh: De onde pensa então que surgiu a Lei do Retorno?

DV: Eu penso que o velho Gardner o deve ter criado num dos seus rituais e as pessoas tomaram isso de uma forma terrivelmente literal. Pessoalmente, fui sempre muito cética em relação a isso, porque não parece fazer sentido. Não percebo porque é que deve de haver uma lei de karma para todas as feiticeiras e feiticeiros e uma diferente para o resto das pessoas. Não me parece bem. Não consigo acreditar nisso.
Fh: Em que acredita então?

DV: Acredito na reencarnação, por exemplo, e penso que explica muitas coisas. Eu tenho bastantes afinidades com o Egito, e acredito que andaria por ali, naquele tempo. Lembro-me de ter lido um livro sobre o Antigo Egito que seria suposto falar sobre a época de Akhenaton, e dei por mim bastante irritada á cerca do livro, quase que á espera de o fazer voar atirando-o para o outro lado da sala e gritar: "Não foi nada disto!!!" Depois pensei para mim: "Mas porque é que está tão zangada por causa deste livro? Isto aconteceu á séculos." O fato de o ler, despertou em mim a sensação de ter vivido ali naquele tempo. Desde essa altura, tentei captar um pouco mais daqui e dali, mas é claro, não existem provas de nada disto. Também penso e tenho um sentimento bastante forte acerca disto,... Penso que a Mrs. Thatcher... .Já reparou alguma vez como ela se parece com a primeira rainha Elizabeth? E existe uma semelhança incrível na forma como ambas governavam o país. O espírito do reinado de Elizabeth esteve bastante presente nessa altura em Inglaterra. Não foi um bom reinado para as pessoas comuns. Mas é melhor não pisarmos o patamar da política.


Fh: Existe política em tudo. Mesmo na Wicca.

DV: Seria melhor se não houvesse. Isso é uma das coisas que me faz pensar se a antiga estrutura de Coven não teve já os seus dias de glória. Ela servia o seu propósito, para a qual foi organizada, nos dias em que éramos forçados a ser um grupo clandestino. Poderei até perceber porque é que a antiga estrutura de Coven foi o que realmente manteve a Velha Religião viva. Mas penso que agora tudo está a mudar. Hoje em dia estamos a tornar-nos mais individualistas. Por um lado muitos dos Covens tradicionais, diziam respeito à família. As pessoas viviam no mesmo lugar e não saiam desse lugar, provavelmente durante séculos. As pessoas nessas situações sabiam melhor do que ninguém em quem confiar e quem não confiar. Saberiam que o tio Harold era desonesto por isto ou por aquilo e que o primo Herbert venderia a sua mãe por cinco tostões. Eles sabiam perfeitamente em quem confiar porque conheciam muito bem toda a gente. Assim você nunca poderia engana-los dizendo que seria o Lord disto ou daquilo, pois eles diriam "Vá, acaba lá com isso. Nós conhecemos-te desde que ainda nem sonhavas nascer!" Estas foram as condições e circunstancias em que os antigos Covens foram criados. Eram fortes porque eram construídos sobre sangue bruxo e sobre pessoas que sabiam em quem confiar. Eram quase praticamente um produto da própria terra.


Fh: Se pensa que os Covens já serviram o seu propósito, qual pensa então que será a próxima maneira de ensinar e praticar?

DV: Eu penso que terão de mudar. Em vez de deixar a política entrar dentro deles, o que é basicamente saber quem será a ou o sacerdote número 1, penso que se irão reorganizar sobre uma base bastante mais individualista. As pessoas irão começar a praticar sozinhas ou com mais duas ou três pessoas de confiança. Em vez de grandes Covens como costumava existir, irão começar a surgir pequenos grupos. Não penso que isto será negativo tendo em conta o panorama geral. Eu não acredito de forma alguma numa espécie de ortodoxia com a qual todos terão de se conformar.


Fh: Não penso que estejamos neste momento preocupados com a sobrevivência da Wicca. Penso que isso já está garantido.

DV: Bom, o Gerald estava preocupado com isso porque ele constatou que a maior parte das pessoas da Wicca era de idade avançada. Ele e Dafo eram praticamente os mais novos elementos no Coven de New Forest, e na altura ele disse-me que tinha muito medo; uma vez que eles morressem, quem iria continuar o caminho? As pessoas tinham medo em Iniciar os seus próprios filhos nessa altura, e esperavam até eles crescerem. Apesar de tudo eu não sinto isso como uma coisa má. Não penso que as crianças devam ser levadas a praticar uma coisa só porque os seus pais a praticam. Mas ele estava bastante preocupado; se não metessem gente nova, iria tudo cair no esquecimento e desaparecer. E ele não queria ver isso. Se isso tivesse acontecido ou não se não fosse ele, é uma boa pergunta. Era isto que estava por detrás da sua procura de publicidade.


Fh: Quando começou a trabalhar com Gardner em 1950, alguma vez imaginou que a Wicca tomasse as proporções que tem hoje?

DV: Não. Nunca pensei que viesse a tomar a proporção que tem hoje. Ás vezes sento-me e começo a pensar e quase que nem acredito. É espantoso. E digo-lhe sinceramente que não penso que se deva a mim ou a Gerald Gardner ou a outra pessoa qualquer. Penso que chegou o tempo.


Fh: O que pensa que Gerald Gardner pensou que fosse a reação aos seus livros? Que iriam aparecer alguns Covens?

DV: Não tenho a certeza se ele alguma vez esperou que aparecessem alguns Covens. Ele apenas queria que as pessoas soubessem que a bruxaria ainda estava viva. Foi apenas quando as pessoas começaram a lhe escrever, e eu sei que ele recebia sacos cheios de cartas....o que é engraçado é que quanto mais o jornal Sunday o condenava, mais cartas ele recebia. E coitado ele não sabia mesmo o que fazer nessa altura. Começou por se encontrar com algumas pessoas que pareciam um pouco mais sensíveis e partiu daí. Mas nem por um momento, não penso que isso tenha sequer acontecido, ele pensaria ou calcularia que se espalharia desde os Estados Unidos á Austrália e agora na União Soviética.

Uma amiga minha, também bruxa, veio falar comigo um pouco no outro dia e disse-me que tinha visto um artigo no The Times acerca do ressurgimento de Covens na Rússia e noutros países para lá da Cortina de Ferro. A pequena centelha conseguiu-se manter acesa lá, a brasa explodiu e cresceu em chama de novo. Depois também temos o fato do que se diz de Gardner; que ele teria inventado tudo aquilo, o que é mentira. Ele apenas dispôs a informação de forma a que as pessoas a pudessem usar facilmente. Mas não acredito que ele alguma vez tivesse inventado a idéia base que permanecia por detrás de tudo.
Eu tenho-me correspondido ultimamente com o meu velho amigo Aidan Kelly. O que ele disse anteriormente ou o que eu pensei que ele disse foi que Gerald Gardner e eu entramos numa conspiração para enganar as pessoas. No que diz respeito ao velho Gardner, bem... Eu não pretendo dizer que ele era a encarnação da verdade ela mesma, mas não penso que ele tenha inventado tudo. Penso que existiu um Coven em New Forest, e acredito que ele o tenha contatado. A pergunta põe-se de outra forma: quantas das idéias e conceitos de bruxaria que nós temos hoje foram trazidas por Gardner e quantas delas seriam mesmo tradicionais originarias do New Forest Coven? Esta é a pergunta que não sei se alguns dias poderão conhecer a resposta, porque infelizmente muita coisa se perdeu e existe sempre uma enorme controvérsia á sua volta. Muitas das coisas têm de permanecer como questões de opinião própria, e as pessoas terão de decidir por elas próprias. Se eu fosse mais nova e tivesse muito dinheiro eu mudar-me-ia para New Forest e tentava fazer um pouco de pesquisa de raiz... Tentar encontrar alguns indícios do que se passou realmente ali. Se alguma vez se virá, a saber... Não sei.

Nesses tempos, as pessoas tinham de encobrir o seu rasto muito mais do que fazem agora. Acredite, a bruxa que disse a Gardner que a bruxaria não era fácil de praticar, não estava mentindo. Naquele tempo era extremamente perigoso, não só ter alguma coisa a ver com a bruxaria, mas com o oculto em geral. Não era de forma nenhuma uma coisa respeitada como o é agora. Longe disso. As pessoas não tinham o mesmo tipo de direitos que têm hoje. Hoje existem leis que o protegem de ser posto na rua pelo seu senhorio se este não gostasse do que você estudava ou lesse, ou ser despedido do seu emprego, só porque o seu patrão é um cristão evangelista ou qualquer coisa desse gênero. Agora não podem dar pontapés ás pessoas assim como faziam antes, as pessoas antes eram sem dúvida muito mais vulneráveis do que são hoje. Tinham de se manter caladas, e tinham de encobrir as pistas e eram obrigadas a ser terrivelmente respeitadas. Dion Fortune, por exemplo, tentou ter um lado de cristianismo místico na sua organização para contrabalançar o outro lado ativamente pagão. Infelizmente e eventualmente não funcionou. Mas eram apenas pessoas que ou eram muito ricas e conseguiam levantar o nariz aos vizinhos ou que conseguiam ficar caladas. Não se entrava numa biblioteca pública, nessa altura e encontrar livros como se encontra agora. Eles seriam proibidos.


Fh: Então quando os livros de Gerald Gardner foram publicados, as pessoas que trabalhavam com ele não ficaram muito contentes...

DV: Claro que não. A Old Dorothy era uma mulher educada. Ela sabia o que estava a dizer quando aconselhou Gardner para desistir da publicação do livro. Receio bem que a discrição não era um dos pontos mais fortes de Gardner e ele queria realmente publicar o livro e revelar quase tudo. Então Dorothy aconselhou-o a publicar o livro em forma de romance histórico. Bom, isto é a ficção. Mas eu penso que muitas idéias que saem nos livros de ficção convêm mais aos títulos de ocultismo do que os livros que ostentam escrita não ficcional. Os melhores livros de Dion Fortune, na minha opinião, são de ficção. Tenho que admitir que nunca fui capaz de acabar o seu livro The Cosmic Doctrine. Como o famoso livro nas histórias da H.P. Lovecraft, não se permite ser lido. Mas os seus livros de ficção estão cheios de informação e interesse.


Fh: Se o grupo com quem Gardner estava a trabalhar naquela época, estava a fazer outros rituais diferentes daqueles que ele mais tarde reescreveu e trabalhou, teria ele registrado esses primeiros rituais?

DV: Se isto é verdade ou não, não sei, mas o seu sócio, Mr. Cecil Williamson, o qual na realidade começou o Museu da Feitiçaria, disse que Gardner tinha um velho livro que não era muito grande. Um manuscrito, que ele guardava com muito cuidado. Infelizmente um dia quando ele mostrava o Museu a uns visitantes o livro foi roubado e o seu desaparecimento nunca foi explicado. Agora, que livro era eu não sei. Não é com certeza um livro que eu alguma vez tenha visto. Qual o conteúdo do livro roubado, porquê foi roubado e se alguma vez irá ser recuperado... Não sei.


Fh: Na sua opinião, quais são as diferenças no modo de praticar a Feitiçaria na Inglaterra e na América, e porque é que pensa que essas diferenças existem?

DV: Eu penso que nós aqui somos menos rígidos aqui. É claro, eu ainda não fui á América, por isso não posso falar com experiência própria, mas as coisas na América parecem ser muito mais organizadas, e por um lado, isso me preocupa, porque retira um pouco o divertimento de tudo. Está tudo a ficar um pouco pesado demais. Eu não sei se os Americanos têm uma tendência natural para serem mais organizados do que os Ingleses. É claro que nós somos desorganizados de uma forma crônica e somos também tradicionalmente excêntricos em muitas áreas. Eu penso que somos mais informais aqui. Nos não organizamos grandes encontros como acontece na América. Provavelmente será por termos menos dinheiro. Deve custar bastante caro organizar esses encontros. Deve ser bastante divertido.


Fh: É uma experiência única, porque nos podemos encontrar com pessoas que fizeram muitas coisas diferentes e os seus rituais... Pode ver o que é que as outras pessoas fazem. É bastante gratificaste e produtivo. É bastante interessante porque existe uma grande diversidade naquilo que as pessoas fazem em termos de Witchcraft nos Estados Unidos.

DV: As pessoas tentam fazer o mesmo aqui e organizar algo parecido por altura do Halloween. Shan Jayran tem vindo a organizar um Festival, normalmente algures em Battersea, e ouvi dizer que tem sido um sucesso, embora eu nunca tenha participado de nenhum deles. Mas não é um acontecimento ao ar livre como vocês fazem na América. A América é basicamente um país muito maior. Vocês lá têm muito mais poder de manobra. Mas nos mesmo assim vamos conseguindo organizar algumas reuniões ao ar livre e muita gente se junta nessa altura. Mas não as podemos fazer de uma maneira tão aberta aqui. Não podemos alugar um terreno sem que a Igreja local nos intimide ou ameace, e esse tipo de coisas.
Fh: Bem, nos Estados Unidos também temos problemas, mesmo assim. Ás vezes temos de explicar com muito cuidado ás autoridades florestais o que pretendemos fazer e o que se vai passar.

DV: Uma das coisas que nos tem dado problemas aqui na Inglaterra são estes rumores sobre aquilo que eles chamam abuso satânico de crianças, o qual, como é evidente eles equiparam à Witchcraft. Tudo aquilo que aconteceu nos Estados Unidos, e provando ser um absurdo. Então agora importamos esse tipo de pânico para aqui... Um mercado vasto e inteiramente novo. Tem vindo a ser assiduamente espalhado por certas organizações extremistas evangélicas.

O que me horroriza é, e isto é mesmo uma história horrorosa, é que em Rochdale, os serviços sociais e as assistentes sociais, depois de fazerem um seminário no qual eram doutrinados nesta matéria e dando uma lista de indicações de como detectar satanismo e abuso satânico de crianças, o que aparentemente tomaram como diretrizes verdadeiras, rompiam pelas casas das pessoas á noite e levavam as crianças. O que é mais grave é que eles moviam-se legalmente, não só para que estas pessoas perdessem a custódia dos filhos, mas também para que fossem proibidas de dizer o que quer que fosse sobre o assunto. Parece incrível numa sociedade democrata como na Grã-bretanha em 1990, mas é um fato. E só recentemente os jornais nacionais descobriram o que se passava, e que começou a escrever sobre tudo isto, trazendo o assunto a público. Algumas das crianças foram agora restituídas às suas respectivas famílias, outras ainda estão, como eles lhe chamam, "em cuidado". Aos pais foi-lhes negada qualquer ajuda legal ao princípio, mas agora conseguiram ajuda legal e estão a tratar da recuperação da custódia dos seus filhos. Vai haver um grande julgamento a propósito do caso e o levantamento de um inquérito oficial, mas este assunto só veio a ser do domínio público porque a imprensa descobriu e disse " mas que raio aconteceu na Grã-Bretanha dos anos 90?". Eu não estou a dizer, é claro, que as crianças não estavam sendo abusadas. Não sabemos se na realidade o foram. Infelizmente existe uma quantidade de crianças que realmente são abusadas. Mas isso é bastante diferente do que se dizer que isto é feito num ritual a Satã ou que faz parte de um ritual de witchcraft e é o que esta espécie de gente está a tentar inventar.

Felizmente, o chefe da polícia de Nottingham, onde todas estas alegações de satanismo começaram, disse que enviou um memorando especial ao Secretário dos Assuntos do Lar dizendo que não há nenhuma prova concreta para se poder afirmar que as práticas satânicas estão patentes nestes casos, e lamentando a existência deste mito diz que o caso, "está a contaminar o país como se fosse uma gripe Asiática." O Chefe da Policia de Manchester tem também manifestado o seu profundo desagrado quanto a estes relatos de Feitiçaria e satanismo relacionados com o abuso de crianças, afirmando ter feito uma investigação minuciosa aos todos casos . Não foram achados corpos nem crianças cozidas no microondas. Esta era entre outras, uma das acusações acredite ou não! Não encontraram ossos nem lugares secretos de reunião. Nada. Nenhuma destas histórias que foram aqui contadas foram fundamentadas com qualquer tipo de prova concreta. Há apenas uma coisa que me chateia profundamente na atitude destas pessoas que afirmam ter testemunhado estes rituais de homicídio e todas estas coisas . Elas irão continuar a dizer mais coisas. Irão testemunhar perante as televisões, nos livros e nos jornais. Contudo existe um lugar a que essas pessoas nunca vão para contar os seus testemunhos. Por que raio é que eles não irão contar diretamente à polícia? Muitas das vezes temos pessoas destas aqui na Grã- Bretanha a fazer este tipo de queixas, mas depois da policia os interrogar, saem cá para fora sem que se encontrasse provas suficientes para provar a queixa. No entanto alegam que “... estavam demasiado assustados para poderem ir á polícia". Bom, então porque é que só falaram agora? Por que é que já não estão assustados? Se fossem á policia, esta dar-lhes-ia proteção, como faz quando se trata de casos sérios de homicídio. Então, se realmente estavam preocupados com isto e se arrependeram, querendo estar fora de tudo isto, porque é que não foram á polícia contar a história?

Esta é, na minha opinião, é o que se chama um enigma e nunca conseguimos ter uma resposta sensata e satisfatória. E gostaria de perguntar isto a todos eles. Estas alegações de assassinato ritual apareceram em todos os nossos jornais, a princípio, mas ultimamente têm diminuindo, agora que as investigações chegaram ao seu termino e dos chefes da polícia não terem encontrado quaisquer provas concretas e credíveis. Aliás, algumas das pessoas que testemunharam perante esses assistentes sociais, á cerca destes abusos satânicos, dizem agora que foram simplesmente submetidos a uma lavagem cerebral, conseqüência dos interrogatórios contínuos a que foram submetidos. Houve uma rapariga que disse: "Eles recusavam-se a aceitar um não como resposta. Não me deixavam em paz sem Ter o que queriam". Bem, se virmos bem, isto era o que se passava nos interrogatórios medievais no tempo da Caça ás Bruxas. O inquisidor recusava-se a aceitar um não como resposta. Como digo, irá ser realizado um inquérito oficial e um julgamento para que estas crianças sejam devolvidas ás respectivas famílias. Sob o sistema judicial Britânico, se há um julgamento deste teor em eminência de se realizar, não poderá haver grande discussão do caso nos jornais enquanto ele está sobre segredo judicial. Não é permitido. Depois, poderão dizer o que quiserem, mas terão de se manter imparciais até que o caso seja resolvido juridicamente, isto porque, dizem eles, poderá interferir na decisão do juiz e do tribunal. Estamos portanto, e como deve calcular, bastante ansiosos quanto á conclusão do tribunal e á resposta do inquérito oficial. Pensa-se que irá demorar seis semanas aproximadamente. E está a custar ao contribuinte comum, alguns milhões de libras.


Fh: Lá vêm os impostos...

DV: Sim, lá vêm os impostos. Existe um aspecto patente nas Igrejas cristãs, o que eles chama de persuasão evangélica, a qual consegue ser bastante fanática e absolutista quanto ao assunto, não só em relação com a Witchcraft e satanismo mas com tudo o que de alguma maneira possa estar ligado com a New Age, até mesmo o vegetarianismo. Qualquer que seja o assunto relacionado com a New Age estará sempre, na opinião deles, ligado ao satanismo.


Fh: Qualquer forma de pensamento independente.

DV: Sim, é exatamente isso, qualquer forma independente de pensamento. Sei uma história curiosa a propósito dessas pessoas. Eles estavam num centro comercial a fazer uma daquelas aparições públicas e a distribuir folhetos e apanhando literalmente as pessoas pelo braço. Um deles chegou ao pé de uma senhora que era feiticeira e disse-lhe " A primeira coisa que nós queremos que a senhora saiba é que Deus a ama, " ao qual a feiticeira muito educadamente respondeu " Sim eu sei que ela me ama". O senhor em questão ficou muito perturbado e acusou-a de blasfêmia.


Fh: O que acha da relação que se estabeleceu entre o movimento Wicca/ Pagão e outros movimentos como o New Age e movimentos de espiritualidade feminina? Parece que, com o movimento ecologista aqui e com 20 anos de Dia da Terra, juntamente com a consciencialização do meio ambiente, a Wicca está ao lado destes movimentos em algumas partes do mundo.

DV: Ah claro, eu penso que sim, que se deve juntar. Penso que existe uma inter-relação vital. A razão pela qual a Wicca se revelou ao público nos anos 50, não foi devido ao esforço de apenas uma pessoa, mas apenas porque tinha chegado a altura e todas estes outros movimentos surgiram porque chegou a altura certa para eles surgirem. Eles fazem parte da era de Aquário. É um movimento histórico e é por isso que eu acho tão interessante observá-los. Já estou muito velha e a única coisa que posso fazer agora é observar. Mas observo com grande interesse, acredite.

Começamos agora a perceber de que modo a caça às bruxas nos anais da história dizia de fato respeito à perseguição das mulheres e tudo tinha a ver com a colocação da mulher no seu devido lugar, tal como eram tidas em conta na época. As mulheres maldosas eram tidas como Feiticeiras e suspeitas de serem feiticeiras tal como as curandeiras, simplesmente por serem mulheres. Apenas os homens poderiam praticar a medicina. Hoje em dia começamos a ver que a ligação entre feminismo e a Witchcraft não é nada de novo. É algo que esteve patente desde sempre. De fato é algo que é vital na sua base.


Fh: É de fato um ressurgimento súbito e interessante.

DV: É exatamente isso. Um ressurgimento súbito. Por que será assim? Simplesmente porque existe, penso, um movimento histórico - aquilo que um dos antigos primeiros ministros chamou "os ventos da mudança soprando" o que é de fato uma expressão bastante apropriada para denominar a Era de Aquário. Aquário é um signo de ar e ele é o vento da mudança que sopra. Não existe ninguém que o possa parar. Foi o vento da mudança que deitou a baixo o muro de Berlim.


Fh: Algumas pessoas dizem que a Nova Era é apenas o antigo com uma embalagem diferente.

DV: E é. É exatamente o que é.


Fonte: Fireheart
5 de novembro de 2010

Bruxo à moda Antiga... Pero, sempre Atualizado!


Parte 2
É eu sei, eu sei... todos nós estávamos ansiosos... rsrs mais em fim o Raven e Eu, viemos trazer a ultima parte de nossa Conversa, que foram se misturando com bolos de chocolate (exposto no meu blog) deliciosas receitas que levam pimenta, e nessa troca de conhecimento acabamos construindo aqui uma relíquia, rica em tradicionalismo, costumes e peculiaridades que remota a época das Bruxas Tradicionais...


F. Silva - Quais as Diferenças de Wicca e Bruxaria Tradicional? O que torna cada uma singular?

Raven - Há diferenças entre Wicca e Bruxaria Tradicional tanto quanto há diferenças entre Judaísmo e Catolicismo, ou entre ser padeiro e bombeiro... no entanto, todos tem o seu valor! Historicamente, a primeira diferença está no tempo: Wicca tem pouco mais de 50 anos. Bruxaria Tradicional é secularmente anterior ( e Gardner mesmo, o criador da Wicca, se baseou naquilo que conseguiu rastrear em relação à Bruxaria Tradicional – através da Bruxaria de Pickingill, do “Arádia, o Evangelho das Bruxas”, de Leland, entre outras fontes tradicionais – para compor sua nova linha de crença e prática mágica ). No entanto, o facto de ser moderna, não tira o valor da Wicca. Pelo contrário: lhe dá um valor todo particular! É uma religião Pagã surgida nos tempos modernos, que graças a seus adeptos mais ecléticos está sempre se expandindo ( não só em quantidade, como também em qualidade ), e com isso, atendendo aos anseios de muitas pessoas em nossa época. Conheço Wiccans que desenvolvem um trabalho e uma vivência seríssimos, engajados mesmo nos propósitos de uma genuína espiritualidade da Terra, e que reflete as mudanças de costumes, assim como o desenvolvimento tecnológico e ideológico de nossa época. E reconheço tais Wiccans como legítimos Bruxos ( ao contrário de outros supostos “bruxos tradicionais”, que tive o desprazer de encontrar pelas vias reais e virtuais, que inclusive chegam a criticar quem usa um simples pentagrama no pescoço, só porque eles buscam cuspir na Wicca que um dia lhes embalou em suas crenças, práticas, esperanças e sonhos... e estes que ingrata e injustamente cospem no prato que comeram, fomentando mais preconceitos, mais desinformação e desunião, COM TODA A CERTEZA, não são Bruxos.... e MUITO MENOS Tradicionais, pois a Tradição de facto jamais esteve compactuada com tal vilania, com tal torpeza, com tal baixaria, tão típica de charlatães e posers ). E o facto de Wiccans se encontrarem e se realizarem não em um sistema de crença e prática tradicional, herdado geração após geração, mas sim em um sistema desenvolvido modernamente, e descoberto através da leitura de livros e sites, não invalida de maneira alguma sua vivência e sua prática. Todos nós, que trilhamos as linhas tradicionais de Bruxaria, também colhemos, em tempos modernos, muito daquilo que sabemos, em fontes acadêmicas, em sites, em livros... Nada de mais, pelo contrário: nossos Ancestrais ADORAM essa facilidade de se obter informação, conhecimento e intercâmbio que a Internet oferece! Sei disso, pois Eles mesmos o falam, quando estabelecemos contacto, e é algo óbvio mesmo: em seus antigos rituais, eles buscavam facilitar a Vida, e não complicá-la... Nós, Bruxos Tradicionais dos tempos modernos, tendo acesso às facilidades que a Internet proporciona, entre outras mais oferecidas pelos avanços tecnológicos e científicos, somos o ideal que eles almejavam... e CLARO: estamos caminhando rumo a conquistar mais e mais... tal como disse anteriormente: estamos em evolução ;)


F. Silva - Você poderia dizer se as Práticas Tradicionais vistas hoje em dia possuem freme Wicca ou elas se mantém puras como nossos Antepassados legaram?

Raven - Nada se mantém intocado e inalterado por séculos e séculos. Ainda mais em se tratando de algo cultural, como a Bruxaria Tradicional, no caso. Muitos Bruxos Tradicionais de hoje em dia, se não flertaram com a Wicca ou mesmo fizeram parte de covens wiccans, com certeza ouviram falar de Bruxaria Moderna e de Gardner. E partindo-se do princípio que toda cultura humana é feita de pedaços de outras mais, propor ( e ainda mais impor, como muitos pretensiosamente fazem ) um conceito de “purismo cultural” é uma noção PRA LÁ de ultrapassada ( e irrevogavelmente mentirosa e infundada ). Estamos no século XXI e temos hoje em dia estudos seríssimos nas áreas de Antropologia que demonstram o quanto as culturas humanas estão interligadas umas com as outras. Tais estudos estão publicados na Internet inclusive! Há documentários que passam na TV, demonstrando o quanto as culturas humanas não são isoladas. Assisto, sempre que posso, o History Channel, o National Geographic, e mesmo na TV aberta, como na Cultura, ou mesmo nos Globo Repórter da vida, estão lá, sempre trazendo o vasto leque de riqueza cultural da humanidade, e o quanto estão as tradições do Mundo todo interligadas... Essa semana mesmo, estou baixando vídeos do Youtube sobre a cultura do povo Amazighe das Ilhas Canárias, que possuem uma cultura religiosa Pagã riquíssima e viva! E numa rápida pesquisa nesse site de vídeos, pude encontrar o trabalho maravilhoso de um grupo de lá, a Comisión Beñesmer, que pesquisa a cultura ancestral de seu povo, e reconstrói os rituais, costumes, idioma, crenças e demais tradições dos Amazighes insulares, e promovem performances públicas, para ensinar através de vivências, de teatro e inclusive de filmes, como era a cultura de seus Antepassados, além de também promoverem rituais públicos, tais como o “Asu n Magheq” e o “Tabburt n Tgrest” ( respectivamente, os Solstícios de Verão e de Inverno ), o Beñesmer ( que dá nome ao projeto deles, e é como se chama o rito de conclusão das colheitas ), entre outros. E vendo os rituais e crenças desse povo, encontrei facilmente correlações com demais tradições mágico-religiosas não só européias, como também indígenas daqui do Brasil! Só não vê REALMENTE o pior tipo de cego: aquele que não quer enxergar, pois não se trata de um deficiente visual, mas sim de um deficiente de carácter...
Purismo não existe, e isso é comprovado quando nos debruçamos no estudo da História da Bruxaria, até as linhagens tradicionais do nosso tempo: quer exemplo maior e bem conhecido de Bruxaria Tradicional como a dos Britânicos, tão ciosos de suas tradições, e que sabem, ainda assim, que tais usanças muitas vezes possuem raízes FORA da Inglaterra? Vide exemplos, como as tradicionais práticas mágicas envolvendo a mandrágora, o olíbano, o tabaco e o sangue-de-dragão, elementos vegetais NÃO-nativos, e que foram levados para a Inglaterra! E assimilados pelos Bruxos Tradicionais de lá em suas práticas! E até hoje tais Bruxos mantém a mesma postura aberta em relação a elementos e conhecimentos de fora, que lhes possam ser úteis... eis os Bruxos DE FACTO! Tão Bruxos quanto tantas linhagens de Streghe e Stregoni da Itália, que herdaram não só elementos culturais dos vários povos italiotas, como também dos gregos, dos ciganos, dos eslavos, dos ibéricos e também dos árabes! E desde muito antes da expansão muçulmana! O mesmo podemos ver entre os Bruxos Ibéricos, das mais variadas linhagens: a Península Ibérica, tal como ocorreu na Itália, recebeu ondas sucessivas de mouros, vindos do norte da África, que trouxeram consigo suas culturas mágico-religiosas. Tais crenças, práticas e costumes influenciaram decisivamente as tradições ibéricas, como podemos ver em receitas mágicas, culinárias, medicinais, ou mesmo na música, nas melodias, no cancioneiro, na literatura, na poesia...
E aí chegamos ao século XX. E surge Gardner, com sua Wicca repleta de conceitos copiados das mais variadas origens: linhagens Bruxas Tradicionais ( tais como a Stregoneria italiana ou a Sorginkeria basca, entre outras ), Maçonaria, Golden Dawn, Thelema, Cabala, Goécia, Teurgia, Magia Cigana, Magia Egípcia... com ele, veio uma retomada do tema Bruxaria na mídia, onde muitos Bruxos de Tradição Familiar acompanharam, em silêncio, o desenrolar dos factos. Gradativamente, o século dos grandes avanços e das grandes revoluções ( feminista, hippie, pacifista, sexual, ecológica, etc ) foi desabrochando, sempre com pétalas cada vez mais coloridas e luminosas... muitas sombras do passado, tais como medos, intolerâncias, preconceitos, violências, entre outras, ainda davam seu tom... mas cada vez iam perdendo foco, dando espaço a uma abertura maior, em crescendo constante... é quando Bruxas e Bruxos Tradicionais, seguindo o velho costume de intercambiar idéias, conhecimentos e experiências com os demais, começam a explorar os novos caminhos. E através dessa troca, houve ( e ainda há ) o conseqüente enriquecimento dos totens da Tradição Clânica. Não se trata de abrir mão da Tradição em prol da Wicca, substituindo uma por outra, mas sim de acrescentar novos conceitos. Evidente que muitos Bruxos Tradicionais permaneceram na sua, ou foram intercambiar com demais grupos ( tradições indígenas americanas, africanas e afro-descendentes, tais como o Vodu, a Santería, o Candomblé, a Macumba, a Quimbanda, etc ).
E é claro que há sim aqueles que se dizem “Bruxos Tradicionais”, alegam ter herdado a Tradição em casa ou de algum grupo tradicional externo, e que apresentam conceitos e práticas wiccans... e só! São grupos que se dizem de linha ibérica, por exemplo, mas que falam de conceitos, mitos, Deuses e festas sazonais irlandeses, sem nem mesmo se dar ao trabalho de procurar saber algo sobre os mesmos aspectos culturais tal como foram vividos e legados pelos celtas da península ibérica, tais como os galaicos, os celtibéricos, etc. Não: é um festival de Ctrl C + Ctrl V de Neo-Paganismo celta-irlandês, apresentado como “ibérico”... Nem mesmo Lugo é citado como tal, mas sim através de seu nome irlandês, Lugh! Tá certo, pode parecer implicância de semânticas e coisa do gênero, mas cabe tal implicância, se notarmos que os mesmos grupos geralmente A DO RAM postar textos pela rede, condenando quem eles nem conhecem, por não se encaixarem em suas premissas PRA LÁ de questionáveis ( para dizer o mínimo! ), e pretendendo julgar “quem é Bruxo e quem não é”... pretendendo impor “o que é e o que não é Bruxaria Tradicional”...
Cada qual é livre para crer no que bem entender, mas é através de tais equívocos, de quem se arroga ser da Tradição, afirmando-se com base na negação do outro, de quem sente a necessidade de berrar aos oito ventos que “não é wiccan” ( isso quando não sente que deve ofender e menosprezar a Wicca e seus praticantes ) para poder se afirmar “Bruxo Tradicional”, que descobrimos quem são os Verdadeiros Peregrinos e quem são os charlatães da vez...


F. Silva -  Como é mantido o culto aos seus antepassados? (exemplo particular. Quando eu era pequeno, lembro que minha Mãe/Avó sentava comigo e com meus primos presentes e contava as histórias familiares, ensinava as antigas orações e perguntava o que nós esperávamos que acontecesse no futuro, o que queríamos ser quando crescer...)

Raven - Cada Família tem suas maneiras peculiares de manter o culto aos Antepassados. A Ancestralidade sempre foi o centro das vivências dos Bruxos Tradicionais, e determinados ritos foram desenvolvidos para fortalecer tais conceitos. Essa noção da Sacralidade dos Idos da Casa me foi passada desde cedo, pelos meus pais, tios e avós. Manter a Chama do Larário eternamente acesa e em Fogo Alto é básico, e tal Fogo Sagrado é sempre renovado em datas assinaladas: seja na Noite dos Idos ( equivalente da Festa celta irlandesa de Samhain ), ou nas Candelárias de Briga, ou mesmo em datas que possuem um significado todo especial para meu Clã... há os ritos envolvendo o lado ibérico espanhol de minha Casa, além dos ritos envolvendo o lado luso-descendente...
Aqui no Brasil, por conta da colonização jesuítica, convencionou-se celebrar os mortos em 2 de Novembro, seguindo o calendário litúrgico da Igreja, criado ( evidentemente ) no hemisfério norte. Mas como, tradicionalmente, os Idos se aprochegam a nós trazidos pelo Manto Cinzento de Galeg, La Vieja Grisa, cavalgando os ventos frios de Inverno, que no nosso caso, sopram do sul ( e aqui onde vivo, entre as montanhas do Vale do Paraíba, no estado de SP, possuem a mesma regularidade encontrada no continente europeu ), acabo, entonces, celebrando os Antepassados duas vezes ao ano: na Noite dos Idos, em 1 de Maio ( que é quando o primeiro Nevoeiro do Inverno é avistado aqui onde moro, na madrugada de 30/04 para 01/05 ); e nos Finados, em 2 de Novembro, que com o passar das gerações, se tornou também um portal energético, de energia clânica e espiritual...
Na Tradição tal como herdei, convivemos com os Ancestrais diariamente: são lembrados e invocados no dia-a-dia, nos rituais domésticos, no trabalho, nas refeições... no Larário que fica próximo à porta de entrada de Casa ( e bem acima do relógio de luz ), convivem em perfeita harmonia imagens de santos, anjos, ícones de Deuses Ibéricos, um elefantinho indiano, uma imagem de Bruxa, evocando a Bruxa de Évora, doces para São Cosme, São Damião e Doum, cristais, pedras semi-preciosas, runas traçadas em pedaços de casca de carvalho, ramos de ervas mágicas... no balcão onde trabalhamos, na Oficina de Costura de Casa, fica uma fotografia de meu pai, que se foi para os Idos há mais de 4 anos. Ele nos deixou como herança o Ofício dele, que é nosso ganha-pão Sagrado, e o meio através do qual exerço também a Tradição em si. Também na Tradição Ibérica, a Porta de Casa está associada aos Ancestrais, por se tratar de um locus Sagrado, que evoca a Fertilidade e a Vida. Como o Portal da Vida e da Morte é o mesmo, é ali que em Noites de Lua Cheia, os Deuses e Deusas da Casa são saudados... e que na Noite dos Idos, recebe a luminosa presença dos Caretos, a alumiar o cortejo das almas errantes da rua, afastando os maus espíritos e atraindo os Abençoados Idos da Casa, que ali receberão suas oferendas de entrada e saudações tradicionais. É ali também que o banquete dos mortos errantes é depositado, para que não interfiram nos rituais dos vivos; e é da porta pra fora, que os lumes santos e as oferendas para os errantes da Santa Compaña, a Procissão das Almas ( que aqui em minha cidade, Jacareí, é mantida como uma Tradição local ) são entregues, e posteriormente, despachadas no Cruzeiro das Almas  mais antigo daqui, que data do século XVII.


F. Silva - Pra você “Bruxaria Tradicional” se tornou religião ou jamais será religião em vista que é um culto aos Antepassados...

Raven - Como disse anteriormente, o Culto aos Antepassados é em si uma Religião. E mais que isso: é a mais antiga de todas as práticas religiosas, pois os homens primitivos, ao perderem um ente querido, e sonharem com ele, retornando vivo e são, ou mesmo poderoso, voando, caçando animais de grande porte, afastando ou trazendo tempestades, perceberam que há um Mundo além deste em que estamos. E que o Espírito é Imortal! Com o passar das gerações, aquele mesmo ente querido continuou sendo lembrado por seus descendentes, e passou a ser venerado e cultuado como um Morto Poderoso: um Deus do Lar! Gradativamente, com o aumento daquela população, seu culto se expandiu, e ele passou a ser um Ancestral do Povo, e por fim: um Deus da Nação! É o que ocorreu com a maioria dos Deuses de todos os povos, e os Orixás do Candomblé, tais como Xangô, Iansã, Exu, Iemanjá, Oxum, Ewá, entre outros, são um exemplo desse processo. O mesmo ocorreu entre os gregos, romanos, nórdicos, celtas, ibéricos, etc. Sendo assim, a divinização dos Antepassados é um processo antropológico. E tal como respondi acima na entrevista: Bruxaria Tradicional define INÚMERAS formas de prática, inúmeros conjuntos de conceitos, de saberes. Tanto pode estar associada a cultos religiosos pagãos ( celtas, ibéricos, romanos, gregos, nórdicos, etc ) ou cristãos, ou muçulmanos, entre outros, ou mesmo não estar ligada a nenhuma crença religiosa.


F. Silva - Todos os Ditos Bruxos Tradicionais conseguem traçar uma linhagem de gerações, a quantas gerações contadas por você, as práticas “Mágicas” estão em sua família correndo por suas veias?

Raven - Na boa? Esse papo de “traçar ancestralidade até trocentas gerações a partir de fulano de tal” é algo mais enfatizado por gardnerianos, que obviamente conseguem efetuar esse feito “tão espantoso”: Gardner viveu há 50 anos! Não, isso nada tem a ver com a Bruxaria Tradicional de facto, que sim, reconhece a Sacralidade dos Ancestrais ( tal como reportei detalhadamente acima ), que até pode, em alguns Clãs, ter como parte de suas práticas o recitar dos nomes de suas linhagens... mas generalizar isso, como alguns supostos “tradicionais” e mesmo alguns wiccans o fazem, inclusive pretendendo IMPOR tal coisa como uma “obrigação” para se ser reconhecido como Bruxo, sinceramente: balela! E outra: de QUÊ serviria eu recitar os nomes de meus abuelos, bisabuelos e demais antepassados, para aqueles que sequer ou mau me conhecem ( e conseqüentemente, desconhecem minha Família, Ancestrais e etc )??? Serei apenas eu a achar isso algo totalmente non-sense e fora da casinha??? Façam-me o favor né!
E os Bruxos Tradicionais que praticam a Arte que herdaram exclusivamente pelo sangue e pelas incursões em Eldritch, através do Vôo extático e xamânico, subindo pelo tronco da Árvore da Vida, e sobrevoando a Colina Oca, rumo ao Portal Dolmênico que leva ao Sabá dos Eleitos ? Que mesmo sem nem saber ( como já vi uma vez ) quem foram seus pais, ou mesmo o nome e a origem de sua Família, conseguem se desenvolver como autênticos Artífices Divinos, exercendo seu Dom com propriedade, e acessando a sua Ancestralidade com Maestria... são MUITO MAIS Bruxos do que certos outros seres que desfiam infindáveis rosários de supostas antepassadas bruxas inglesas, francesas e o que mais for...
Eu mesmo, que tenho minha Ancestralidade Bruxa mais que comprovada, não me sinto mais Bruxo por este facto... até porquê, quando comecei a trilhar o Caminho, eu providencialmente não sabia de minhas origens mágicas celtibéricas, até que isso me foi revelado, no tempo certo... os Viejos de la Casa sabem MUITO BEM o que fazem, e QUANDO fazem...;)
O mais importante de um Bruxo Tradicional não é saber de cor e salteado os nomes daqueles que o antecederam no sangue: mas sim, saber conjurá-los, invocando-os nos momentos e locais de Poder...


F. Silva - O que você poderia ensinar a nós?

Raven - Algumas coisas, tais como: se fizer Sol no dia das Candelárias de Briga, é batata que o Inverno demora pra ir embora; oferecer um pedaço de panetone e uma taça de vinho tinto aos Três Reis Magos e água e frutas cristalizadas a Seus Camelos no Dia de Reis ( 06 de Janeiro ) traz MUITA Boa Sorte no decorrer do Ano Novo; embrulhar uma cabeça de alho em papel alumínio e assar no forno por alguns minutinhos, descascando-a em seguida e misturando com maionese, se consegue um molho DI VI NO para acompanhar carnes; se der doces para as crianças no Dia de São Cosme e São Damião ( 27 de Setembro ), é recomendável repetir o gesto todos os anos, e assim, manterá por toda a Vida a Saúde, a Prosperidade e a Leveza de Espírito; prestar atenção no mato rasteiro que cresce em terrenos baldios e na guia da rua pode ser valioso para aqueles que buscam ervas mágicas típicas das Bruxas; sonhar com alguém se casando, na certa é mudança na vida dessa pessoa, principalmente no aspecto profissional; raiz de valeriana em pó substitui poeira de cemitério em feitiços que exigem esse ingrediente; mel realmente ajuda a adoçar pessoas mais ranzinzas ( ofereça balas de mel ou coloque o nome dela num vidro com mel, flores de camomila, sementinhas de erva-doce, e lacre a tampa com cera de vela branca, deixando-a terminar de queimar sobre o vidro ); borrifar tintura alcoólica de assafétida ou queimar cascas de alho no ambiente afasta espíritos indesejáveis; em todo convento mora ao menos uma Bruxa praticante; amido de milho em pó ( mais conhecido como Maisena ) é ótimo contra assaduras; tem horas que a melhor coisa a fazer é deixar as coisas simplesmente serem como elas são, dê o que der; queimar o nome de alguém escrito num papel na chama de uma vela preta salpicada de pó de ferro, pimenta-do-reino em pó e pó de raspa de chifre de veado faz REALMENTE essa pessoa sumir; a ajuda de que necessitamos geralmente surgirá donde menos esperamos; beber café com um pedaço de manteiga sem sal descongestiona a secreção presa no peito; quando a palma da mão coçar, se deve coçá-la virada para cima, da ponta dos dedos para o punho, e o dinheiro logo chegará; um Feitiço depende muito mais da postura de quem o pratica do que dos ingredientes que o compõem; uma pitadinha de pimenta-do-reino em pó na massa do brigadeiro faz uma ENORME e deliciosa diferença... entre outras tantas coisas... todos nós temos algo a ensinar... ;)


F. Silva - Na sua Família, existe alguém que costumeiramente coleta informações sobre a família? Vocês possuem um livro de Registro ou algo parecido?

Raven - Acho que toda Família tem sempre alguém que se interessa mais em saber das histórias, origens e particularidades de seu Clã. Entre os meus, não possuímos nenhum Livrão das Bruxas a la Charmed, mas tenho um tio que adora colecionar fotos e objetos que pertenceram aos avós e bisavós; tenho uma prima que adorava ouvir histórias de uma tia-avó espanhola, a quem freqüentemente visitava, e que vira e mexe me conta tais descobertas; já uma outra tia, que já partiu para os Idos, viajou para Portugal em busca de resgatar nossas origens, e chegou a peregrinar até Jerusalém nessas descobertas; meu tataravô lusitano era padre, e fugiu de Portugal com minha tataravó, por quem se apaixonou, e vieram pro Brasil, para onde ele trouxe algumas tradições de nossos Ancestrais ( todo padre, ainda mais lusitano, tem sempre seu caldeirão fumegando algo além do mero e prosaico caldo verde....rs ); e tem eu, que sempre estou a pesquisar mais sobre as origens do Clã, seja refazendo os passos que minha bisabuela sevillana de raiz galega celta fez um dia até esse Novo Mundo, seja peregrinando pelas heranças mágico-religiosas sincréticas, legadas pelos meus tataravós lusitanos, ou pelas minhas origens caboclas, através de minha avó mineira, descendente de indígenas desta Terra Brasilis.... e por aí vai... :)


1 – Geral.

F. Silva - O que é Deus em 10 palavras?

Raven - Não me prendo a números. Nem a nada. Nem a ninguém. Logo, definir coisas em números específicos de palavras, nada tem a ver comigo... com o ser Bruxo em si... Sendo assim, com sua licença, quebro essa lógica numérica aqui, e responderei tais perguntas da forma como sempre conduzo TUDO na minha Vida: com Heresia ( do grego “hairétikos” = aquele que pensa e que decide por conta própria ). Afinal: não há Bruxo ou Bruxa que não sejam heréticos... ;)
Deus sou eu.

F. Silva - Você sem família o que seria em 15 palavras?

Raven - Depende do ponto de vista. Ficar sem parentes encarnados: eu teria de me virar sem eles. Ficar sem Família: ninguém fica. Os Lares sempre nos acompanham. E Família, não é obrigatoriamente feita com indivíduos consangüíneos... os amigos, por exemplo, são a Família que escolhemos.

F. Silva - Olhando o passado e prevendo o futuro o que o destino reserva em 20 palavras?

Raven - Aquilo que eu e a Velha Destino assim tecermos juntos, em co-autoria...

2 – Arte.
F. Silva - Em 20 anos talvez alguém ainda leia essa Entrevista, o que você quer deixar registrado aqui?

Raven - Uma pergunta: E aí, 2012 foi a rave “toda” que prometeram que seria? Rsrs, :D

F. Silva – O que falar para os Jovens e Velhos Bruxos do Amanhã?

Raven - Que não percam nunca de vista a importância do Tesão. Pois Ele sim, é o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém chega ao Pai/Mãe ( o Ancião dos Dias, Kheter ) sem Ele... Khaire Melanaigos \|/

F. Silva - O que você espera dos Bruxos Tradicionais para o amanhã?

Raven - Que continuem a fazer exactamente o que têm sido feito.


3 – Ofício.
F. Silva - O que você criticaria no paganismo no Brasil?

Raven - No Paganismo, nada. Seja no Brasil ou em qualquer outro lugar, pois como disse: O Paganismo de facto é reconhecido nos trilhadores desse caminho espiritual, realmente coerentes com a Tradição. Já no que toca aos charlatães, é outra história, mas sinceramente, não os criticarei: eles já fazem um ótimo serviço cometendo os absurdos que cometem. Separar o joio do trigo está cada vez mais fácil, quem tem olhos que vêem está a enxergar esse mórbido e patético circo pseudo-pagão exactamente pelo que ele é e pelo que ele vale. E esse serviço, por si, já os exime de qualquer crítica a mais... que continuem assim... ;)
F. Silva - Você tem um desabafo pra fazer?
Não.

F. Silva - Quem é Raven Luques McMorrigú  por ele mesmo...?

Raven - Meu nome é Raven Luques McMorrigú, sou Bruxo de Tradição Ibérica e Galaico-Lusitana hereditária, e também herdeiro da Bruxaria Moura do Marrocos e Andaluzia. Paralelamente à Tradição que herdei do Clã, trabalho com Reconstrucionismo Pagão Ibérico e Celtibérico e também com Sorginkeria ( Bruxaria Tradicional Basca ). Sou tarólogo, quiromante, cafeomante, perfumista, artesão e também trabalho com Runas Ibéricas de meu Clã. Me dedico aos estudos de História, Antropologia, Religiões Comparadas, Mitologia, Ocultismo, Tarot, Magia e Bruxaria há mais de 20 anos. Nasci e vivo em Jacareí ( SP ), onde de 2001 a 2007 fiz parte de um grupo de estudos voltado ao Paganismo e à Bruxaria, que promovia reuniões abertas semanalmente, no Parque dos Eucaliptos. Atualmente sou um dos organizadores do Encontro de Pagãos e Bruxos do Vale do Paraíba, um evento itinerante, que ocorre todo mês em alguma cidade do Vale, e que visa promover o intercâmbio cultural e ampliação de redes de contacto, de trocas de idéias, experiências e conhecimentos, assim como de ajuda mútua entre grupos, clãs, covens, círculos e trilhadores solitários, promovendo o sentido de comunidade Pagã em nossa região.
Mantenho um blog voltado ao estudo e reflexão sobre Bruxaria, Magia, Paganismo e Folclore Ibéricos e Ibero-descendentes...

www.iberiaeterna.blogspot.com

Esse é meu perfil no Orkut:
http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=1990298811877715826

E essas são algumas comunidades que tenho no Orkut, voltadas à Bruxaria:

Bruxaria Tradicional:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=92647395

Bruxaria Tradicional Ibérica:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=17578352

Bruxaria Tradicional Basca:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=34917852

Bruxaria Medieval:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=33342352

Poções Mágicas:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=6840406

A Bruxa de Évora:

Para quem quiser participar do Encontro de Pagãos e Bruxos do Vale do Paraíba, abaixo está o link da comunidade de nosso evento:
http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=90717998

E para quem quiser entrar em contacto comigo, tirar dúvidas, trocar idéias, é só enviar um e-mail: el_sabarum@hotmail.com

Bendiciones del Cuervo y del Aker...

Depois dessa longa conversa... Ficamos por aqui... quem sabe daqui um ano não lançamos uma atualização??

A Todos...

Bênçãos.



É com alegria e tristeza que trago a ultima parte dessa conversa... quem sabe em 1ano não fazemos uma atualização???
15 de outubro de 2010

Bruxo à moda Antiga... Pero, sempre Atualizado!

A Entrevista foi dividida em 2 parte.
A Segunda Parte Será Lançada no Dia: 05/11/2010

"VERDADEIROS Bruxos se encontram nas encruzilhadas ou no Sabá que não tem dia ou hora para acontecer, ele sempre vai esta lá para quem souber entrar pela porta. Os Verdadeiros Eleitos se conhecem pessoalmente apesar da distancia e não necessitam de meios modernos para se comunicar..."
no dia de hoje tenho a honra de aprensentar o BT Raven...

Seja Bem vindo ao Ishiaro - Hedge Witch Craft.


F.Silva - Qual Seu nome Social?

Raven - Meu nome civil é Everson Romero

F.Silva - Qual nome pagão?

Raven - O nome pelo qual sou conhecido na comunidade Pagã e Bruxa é Raven Luques McMorrigú. Raven evoca o animal totêmico da Mãe de meu Clã, que é o Corvo. Luques é o nome do Clã galego-celta do qual descendo, através de minha bisavó, Dolores Luques, sevillana de raiz galega. E McMorrigú evoca a condição de descendente da Soberana Rainha dos Corvos de Batalha, que junto a Lugo, forma o Casal de Deuses honrados na tribo celta galega da qual descendo.

F.Silva - Idade?

Raven - Trinta e um no registro, e variável a depender do rumo que meu Espírito tomar....

F.Silva - O que você faz da Vida e para a Sociedade Comum?

Raven - Sou Arteiro. É como me defino: sou costureiro, feiticeiro ( faço poções por encomenda ), perfumista ( faço perfumes artesanais, óleos ritualísticos e de massagem, entre outros ), tarólogo, quiromante, cafeomante, oniromante ( interpreto sonhos ), artista plástico ( pinto ícones, que são quadros representando Deuses e Santos, e também faço vassouras típicas de Bruxas, etc ), já ministrei cursos sobre noções básicas de Bruxaria e Feitiçaria, e por aí vai... sou Artista e Feiticeiro, ou seja: Arteiro! ;)
No mais, sou um cidadão consciente de meus deveres e direitos, trabalho, pago impostos, voto, contribuo para o crescimento de minha Família, de meu Clã, de minha cidade, de meu estado, de minha Nação. Trabalho localmente e penso globalmente.

F.Silva - Como foi a sua infância?

Raven - Como nascido e habitante de uma cidade interiorana, foi uma infância bem legal, com muita brincadeira, passeios em áreas verdes. Foi bem lúdica, ao contrário do que vemos hoje em dia: crianças já nascem com modem. Eu cheguei a subir em árvores, a brincar em meio à Natureza, convivi com animais e plantas, desenhei muito, pintei e bordei, e comecei cedo a ser treinado na Arte. Com 10 anos, já lia Tarot e estudava Mitologia e Magia. Bruxos de minha linhagem se desenvolvem desde muito jovens.


F.Silva - Hoje você se considera um adulto, e que tipo de adulto você seria?

Raven - Na cultura de meu povo, já se é considerado adulto desde os 13 anos. Um rito de passagem demarca isso. Comigo foi assim. Depois, aos 18 recebi a primeira Iniciação, e aos 23, a segunda. Não sei se há tipos diferentes de adultos. Há tipos diferentes de pessoas. Quem me conhece pode falar a meu respeito. Me considero uma pessoa tranqüila e do bem. Cuido de mim e dos meus, não invado o espaço do outro, e exijo que respeitem o meu espaço. Até porque, quem o invade, acaba descobrindo que posso ser tranqüilo e do bem, mas quando preciso defender a mim e aos meus, viro no CÃO bonitinho, e com uma eficiência a toda prova... ;)
É a velha história: respeito o calo dos outros, e quero que respeitem os meus. No geral, sou tolerante, amigável e cortês. Mas sei também deixar CLARO quando não gosto de algo ( como todo ibérico, aliás, rsrsrsrs ).


F.Silva - O que é o “Paganismo Hoje” pra você?

Raven - Paganismo é um rótulo generalizado para espiritualidades ligadas aos ciclos naturais, da Terra, assim como ao Culto dos Ancestrais. Para mim, “Paganismo Hoje” é o mesmo para todos aqueles que tem olhos que vêem e não apenas olham: um conjunto de espiritualidades ligadas aos ciclos naturais e ao Culto dos Ancestrais, que em sua maioria, passaram por releituras no que toca a formas, a práticas, a rituais, seja para se adequar às legislações modernas ( em muitos países, sacrificar animais é proibido, por exemplo ), seja para se adequar a novos conceitos, que a própria sociedade moderna apresenta. Muitos dos rituais de tradições religiosas Pagãs, em sua origem, foram compostos para atender a necessidades que, hoje em dia, não mais temos. Cabe a nós, hoje, fazermos uma releitura sobre tais práticas, e ver em que sentido podemos trabalhá-las, de forma a permanecerem fazendo sentido. Além disso, devido às necessidades surgidas no Mundo moderno, novos conceitos e práticas rituais acabam surgindo, para atender a essa demanda ( afinal, estamos em evolução, tal como nossos Ancestrais assim o desejaram, em seus antigos rituais, eras atrás ). No entanto, há práticas rituais que, mesmo parecendo afazeres totalmente obsoletos, encerram em si conceitos espirituais ancestrais, que devem sim ser resgatados e/ou mantidos. Como exemplo, posso citar o ritual da Sementeira, do povo Amazighe das Ilhas Canárias, que é até hoje praticado: sacerdotes e sacerdotisas desse povo abrem sulcos na terra com arados ou bastões com chifres de cabras presos, e aram o solo, onde depositam as sementes junto com oferendas à Mãe Terra. Mais do que o simples trabalho de plantio, seguindo métodos arcaicos, tais práticas se configuram em ritos ancestrais, que renovam o Pacto desse povo com os Deuses e Espíritos da Terra e do Céu.


F.Silva - E o que você mudaria no Paganismo?

Raven - Nada. A Tradição é o que é. Mudo sim, aquilo que me cabe mudar, dentro de minha missão como Sacerdote da Tradição Ibérica, tal como a herdei: mudar aquilo de material que é necessário mudar, para se manter o conceito, a essência da Tradição em si. Isso sempre foi feito, e todo Guardião da Tradição deve estar sempre preparado para operar tais mudanças, quando necessário. No mais, o que pode ser mantido, assim o é, com zelo, amor e honra.

F.Silva - Você poderia falar um pouco sobre a Arte que você pratica?

Raven - A Bruxaria que pratico reúne aquilo que herdei de meus Ancestrais, sejam eles ibéricos, mouros, celtas, romanos, judeus, indígenas brasileiros, etc. Sou o fruto das infinitas alquimias operadas no sangue que herdei. Essa mistura é condição humana: não há povo que não seja a mescla de outros mais. Logo, todo ser humano é mestiço. Isso é antropológico, e quem nega isso, é porque não conhece de facto Bruxaria ( assim como História, Antropologia, Etnologia, etc ). Sendo assim, com a cultura humana, se dá o mesmo: culturas se fundem e se mesclam. Pratico rituais mágico-religiosos ibéricos, celtibéricos, galegos, lusitanos, mouros, e por conviver com Stregone, com Wiccans, com Xamãs, com Umbandistas, com Ciganos, entre outros, acabo aprendendo novos rituais e conceitos com eles, tanto quanto também ensino. Esse intercâmbio, essa troca, SEMPRE existiu, e é fator comum a todas as linhagens Bruxas, sejam ibéricas, italianas, britânicas, sejam bascos, celtas, indígenas brasileiros, africanos, etc. Mantenho os rituais religiosos Pagãos Ibéricos, honrando os Antigos, mas sempre estou aberto para honrar outros Deuses, de outros povos, tal como todo verdadeiro Pagão sempre o fez.


F.Silva - As suas práticas podem ser consideradas “Hedge Witch Craft” (Algo como Bruxaria Solitária com um freme mais tradicional, voltado para a Bruxaria Tradicional Britânica) ou você poderia se considerar um “Cunning Man” (Homem Sábio, curador...)?

Raven - Talvez um pouco de cada coisa, pois apesar de celebrar rituais mágico-religiosos com demais pessoas ( familiares e amigos ), meu Caminho Iniciático é pessoal, idiossincrático e intransferível. Ninguém pode gozar nem sofrer por mim, logo, é algo que trilhamos com nossos próprios pés. E como sou procurado para resolver certas questões físicas, espirituais, energéticas e emocionais através de minha Arte Feiticeira ( via benzimentos, amuletos, feitiços, poções, filtros, elixires e óleos curativos, exorcismos, etc ), também procede a comparação com os Cunning Men. Sou exactamente isso: um Bruxo, palavra portuguesa que advém do mirandês e do galego, e que por sua vez, se originou do espanhol “Brujo ( a )”, cujo significado é “Aquele ( a ) que sabe mais” ( do latim “Plusscios”: Plus/mais + Scios/ciência = “mais ciência”, “mais saber”, segundo o saudoso Julio Caro Baroja, historiador e professor de História da Universidade de Madrid, e um grande especialista em Bruxaria ). O Bruxo ( ou Brujo em castellano, ou Bruixo em catalão ) é o Cunning Man Ibérico, o Xamã dos portugueses e espanhóis. Só antropologicamente que tal termo passou a se generalizar: é por isso que existem Bruxos Italianos, Bruxos Bascos, Bruxos Britânicos, Bruxos Mouros. Tal como o termo xamã, que define o Cunning Man de tribos norte americanas ( ainda que nenhum povo norte americano chame seu Homem Sábio pelo nome “Xamã” ).

F.Silva - Você seria um Bruxo Tradicional?

Raven - Sim, como disse anteriormente: sou Bruxo, por assim ter nascido, por assim ter sido treinado e assim ter sido iniciado. Sou Bruxo, pois este é o nome dado ao Homem de Saber dos portugueses e espanhóis, povos dos quais advém meu sangue, além de demais origens étnicas que possuo ( indígena brasileira, marroquina, etc ). E sou Tradicional, pois a Bruxaria que pratico eu herdei daqueles que me iniciaram.

F.Silva - O que é Tradicionalismo ou Tradição?

Raven - Tradicionalismo é buscar um estilo tradicional. Já a Tradição é a Herança. E quem a herdou é tradicional, diferente do tradicionalista, que não herdou, mas busca um estilo tradicional.

F.Silva - O que é Bruxaria Tradicional para você?

Raven - Um conjunto de Escolas de Ofícios. Com esse termo, não me refiro a instituições voltadas ao  exoterismo, com a fachada decorada como um castelo medieval de festa de aniversário infantil, mas sim de Oficinas de aprendizagem dos antigos conceitos, repassados através de simbolismos e práticas cotidianas, de cunho religioso ou não. E tais oficinas não precisam ser necessariamente sediadas em um local decorado para tal: antigos ofícios práticos, tais como os de sapateiros, alfaiates ( como no meu caso ), cozinheiros, pedreiros ( origem da Maçonaria ), domadores de cavalos, caçadores, etc, são possuidores, em muitas famílias e demais grupos, de tal herança tradicional, não só operativa, como também especulativa. Também envolve Saberes e práticas repassados apenas em linhagens familiares, com maior ou menor sincretismo com conceitos e simbolismos de religiões abraâmicas ( judaísmo, cristianismo e islamismo ), entre outros. Sendo assim, Bruxaria Tradicional não é sinônimo de “religião pagã”, ou de “religião celta”, entre outros equívocos. Ela engloba tanto crenças e práticas religiosas quanto ofícios práticos, independentes de religiosidades. Nem todos os Bruxos Tradicionais vêem a Bruxaria como religião, por vários motivos. Pra citar alguns:
a)     Por serem linhagens que trabalham com a Fé Dupla, dentro de uma compreensão Luciferiana ( Bruxaria per se ), ou então por conta da prática de sincretismo ( algo presente nas mais variadas culturas, inclusive entre os povos europeus, e de forma gritante ainda ), que se mostra em linhagens Bruxas Cristo-Pagãs ( que os mais disparatados não confundam isso com “wicca cristã” );
b)     Por serem linhagens que mantém a Fé que herdaram de seus pais, e sendo a mesma Fé comum ao povo, não buscam mudar de religião para lidar com a Arte, pois esta Arte lhes foi transmitida dentro do universo cultural de tal Fé. Um exemplo disso, é a Benedicária, na Itália, uma Tradição Mágica baseada em conceitos, simbolismos e práticas religiosas católicas, onde pessoas que nascem com o Dom ( tal como Bruxas e Bruxos Pagãos ) são iniciadas por Mestres ( geralmente os mais Velhos da Família ), e aprendem os significados e valores mágicos de instrumentos, tais como velas, imagens de santos, rosários, óleos bentos, assim como ervas, pedras, partes de animais, etc. São pessoas procuradas por suas comunidades para resolverem diversos problemas e curarem os mais variados males do corpo e da alma....ou seja, Bruxaria PURA ( e aqui no Brasil, encontramos correlatos entre as Benzedeiras, Rezadeiras e Curandeiros populares, que são dignos representantes da Bruxaria Tradicional Brasileira ) ;
c)     Ou por se tratar de linhas tradicionais que ensinam que não há necessidade alguma de se praticar alguma religião ( do latim, “religare”: ligar novamente ), pois os Bruxos de tais vertentes entendem que nunca se desligaram das Forças Primordiais, representadas na Natureza. Logo, não vêem sentido algum em ter de se re-ligar com tais Forças, com os Deuses, enfim, pouco importando como se vai chamar tal conceito.
O que fica claro é: Bruxaria Tradicional define INÚMERAS formas de prática, inúmeros conjuntos de conceitos, de saberes. Tanto pode estar associada a cultos religiosos pagãos ( celtas, ibéricos, romanos, gregos, nórdicos, etc ) ou cristãos, ou muçulmanos, entre outros, ou mesmo não estar ligada a nenhuma crença religiosa.

F.Silva - As Pessoas na sua Família praticam a Bruxaria em conjunto com você ou separadamente? 

Raven - Nem todos os que nascem em uma Família de Bruxos são Bruxos Iniciados, nem possuem o Dom desperto na mesma proporção. Somente aqueles que são iniciados na Tradição Familiar é que tomam conhecimento do Saber Ancestral. Logo, nem todos de minha Família são praticantes de Bruxaria. Mas há tradições sincréticas, tais como danças rituais em louvor a determinados santos ( associados a antigos Deuses de nossos Ancestrais Ibéricos ) e demais ritos e orações, que são de usança geral do lado lusitano e luso-descendente de minha Família. Portanto, há ritos que celebro solitariamente, assim como outros apenas na presença de certas pessoas, e outros mais ainda diante de toda família e/ou publicamente. Há costumes que são heranças do Povo né...

F.Silva - Qual o grau de importância tem os Antepassados na sua família ou pra você?

Raven - Total, pois o Culto aos Mortos é a base das mais antigas formas de Bruxaria ( assim como das mais antigas crenças e práticas religiosas ). Nós somos a prova de que nossos Ancestrais venceram: somos a continuação deles. Se estamos vivos, é porque todo o esforço e luta deles, para garantir a própria sobrevivência e a sobrevivência de seus filhos, foi alcançado. Os Ancestrais nos legaram o Saber e o Dom através do sangue. Nosso sangue é o Domicílio deles, tal como eu cito em meu vídeo “Terra e Sangue – Raízes da Bruxaria Tradicional”. Enquanto vivermos, eles também viverão, tanto quanto nós seremos eternos através de nossa descendência. Os Ancestrais são os maiores interessados em nosso sucesso, pois somos nós, seus descendentes, que mantemos o seu culto. Nossa Vitória é a Vitória deles. E assim sendo, nossos descendentes se reportarão a nós da mesma maneira. Somos os Ancestrais de amanhã.


F.Silva - Você acredita em todas as pessoas que se dizem tradicionais ou tradicionalistas no Brasil? Ex.: Marcia Frazão (Cito Marcia Frazão por ser um exemplo de Bruxa dita Hereditária pública) ou você acha que os tais reais Bruxos Tradicionais se mantém no anonimato por acreditarem que não há necessidade de exposição?

Raven - Não discuto pessoas. Discuto idéias. Cada um sabe de si, e a coerência de cada um com aquilo que evoca e arroga a si, falará através de atitudes, de discursos, enfim. O fruto fala da árvore, inclusive por possuir, em sua semente, todo o DNA dela. Quando menciono Bruxos Tradicionais, me refiro àqueles que de facto herdaram a Tradição em Casa, ou em sua peregrinação pelo Mundo... mas que a herdaram! Exclui-se desse meio, evidentemente, aqueles que se dizem tradicionais, que chegam inclusive a fazer sites e listas de discussão, a lançar livros, a querer arregimentar pessoas em grupos, em associações, conselhos, federações e coisas do gênero... até supostas “igrejas de bruxaria” andam fundando, com a pretensão de arregimentar todas as denominações de Wiccans e Bruxos... mas daí, você dá uma mirada nas propostas de tais grupos e/ou tem uns 5 minutos de prosa com tais indivíduos ( ou até menos que isso ), e acabamos percebendo que tem alguma coisa errada ( ou como diz um amigo meu: fizeram fora da casinha...rsrsrs :p ). Enfim, charlatanismo sempre existiu, e em todos os meios, em todas as profissões, em todas as religiões...
Cada Bruxo Tradicional sabe de si. Portanto, haverão aqueles que querem ficar no anonimato, assim como haverão aqueles que não vêem problema algum em se expor. Até porque, há várias linhagens de Bruxos Tradicionais que se expõem publicamente, o que não quer dizer que abrem os seus Mistérios a todo Mundo. Uma coisa é Mistério; outra é segredo. E Mistério é para ser vivido intimamente, internamente, pessoalmente, pouco importando se tal vivência se dará em rituais públicos ou privados ( os antigos Cultos de Mistérios Pagãos, que são raízes de muitas linhagens Bruxas Tradicionais, são um ótimo exemplo ). Outros três exemplos, contemporâneos a nós, de Tradições Mágico-Religiosas de Mistério, que se configuram em Bruxaria Tradicional, são: o Candomblé, a Magia Cigana e a Benedicária.
Candomblecistas mantém uma Tradição familiar, repassada de geração a geração ( mesmo quem ingressa em tal caminho, oriundo de outras culturas, é aceito e feito filho da casa – mas isso é melhor compreendido por aqueles que de facto re-conhecem tais Mistérios ). E assim, a Tradição é repassada, no interior da camarinha, no coração do Barracão...
Entre os ciganos, encontramos também uma Tradição Bruxa, onde o Dom é legado às novas gerações, juntamente com os fundamentos, costumes e valores desse povo... e eis que a Tradição é repassada no interior da Tsara... e isso é, também, assunto de quem é de dentro...
Na Benedicária ( sobre a qual falei anteriormente ), a Magia é repassada dentro do Clã. E as práticas de benzimento dos Magos de tais linhagens italianas são feitas diante de todos: mas as palavras de poder, que são um dos Domicílios do Mistério central de sua Tradição, são pronunciadas baixinho, sussurradas, quase inaudíveis... nós aqui no Brasil BEM conhecemos isso, através das Benzedeiras, Rezadeiras e Rezadores de nosso Povo. Eles não oficiam seus ritos às escondidas, nem escondem sua condição de praticantes desse Ofício Mágico-Religioso. O que não quer dizer que abrem TUDO o que herdaram a todos! No caso dos praticantes da Benedicária, na Itália, o rito de Iniciação deles é feito à parte, longe dos olhos e/ou dos ouvidos dos de fora. É quando os mais velhos ensinam os benzimentos, as palavras de poder, assim como as curas tradicionais de sua Família, aos mais novos. Isso geralmente é feito na Noite de Natal ( o Portal Solsticial de Inverno, para que o novo Mago renasça junto com o Sol ).
Igualmente, Bruxos hereditários ( dentro de um contexto europeu e euro-descendente, mas também aplicável a demais casos – antropologicamente falando – já citados por mim ) são herdeiros da Tradição ( o significado de “Traditio” torna isso uma óbvia redundância ), repassada também de uma geração a outra, no limiar entre os Mundos, evocado aos pés do Larário, ou ao redor da fogueira, que arde no centro da Encruzilhada, etc ( mais uma vez, quem conhece os Mistérios, dispensa explanações sobre ). Assim tem sido, pelos milênios afora, independente da crença ou descrença dos de fora.
Sendo assim, haverão Bruxos Tradicionais que pertencem a um meio cultural onde sua condição é conhecida e receberá tratamentos dos mais variados: da adoração ao repúdio, do medo à curiosidade, do desprezo ao respeito e valor, etc. Tanto quanto haverão Bruxos Tradicionais mais discretos, silenciosos, ou até mesmo completamente  desconhecidos, escondidos e isolados de tudo e de todos... É vasto esse leque, como pode ver. Mas, ainda assim, quem já não ouviu falar ou mesmo viu um Babalawô, ou um Babalorixá ou uma Yalorixá do Candomblé? Muitos podem dizer que convivem com tais pessoas, e mesmo já participaram de rituais abertos de suas Casas. O que não quer dizer que podem afirmar que sabem TUDO o que envolve a Tradição mantida por tais sacerdotes e sacerdotisas! O mesmo vale no que toca aos Kakus e Shuvanis ( Bruxos e Bruxas Ciganos ), assim como em relação aos praticantes da Benedicária, e demais Rezadores e Benzedeiras.
E aproveitando que você já citou o nome dela, tenho a dizer que respeito e gosto muito do trabalho da Márcia Frazão, os primeiros livros da Arte Bruxa que eu li foram os dela, e os recomendo a todos os interessados em descobrir mais sobre si e sobre a Bruxaria. Márcia é uma autora fantástica, e Bruxa como poucas...

F.Silva - Existe preconceito entre Classes “Pagãs”? Comutatividade ou mesmo rixas infantis entre eles?

Raven - Tal como disse anteriormente sobre Bruxos Tradicionais, retomo aqui em relação ao Paganismo: os Pagãos de facto são reconhecidos por suas atitudes e discursos. É assim que se separa o joio do trigo. E charlatanismo, infelizmente, é algo comum em todas as religiões e meios sociais...

F. Silva - Você sofreu ou sofre algum tipo de preconceito com relação a sua fé?

Raven - Acho que não há ser humano que não tenha passado por isso, pois preconceito é uma humanice: portanto, é algo próprio do bicho-homem, pouco importando se ele usa um crucifixo ou um pentagrama pendurado no pescoço. Quantos católicos já não se sentiram hostilizados por evangélicos? E vice-versa? Quantos umbandistas já não foram hostilizados por kardecistas? E os muçulmanos então? Por pessoas de todas as religiões assim como pelos sem-religião, são impiedosa e injustamente taxados de “terroristas”, como se elas mesmas, ao fazerem isso em relação aos muçulmanos em geral, não estivessem, com esse ato preconceituoso, praticando um terrorismo!
Já fui discriminado sim por ser Bruxo e Pagão, seja às escondidas ou mesmo na cara dura. E não só por evangélicos ou católicos, como também por kardecistas, exoteristas, ateus ( por paradoxal que possa parecer, pois os verdadeiros ateus não se incomodam nem um pouco com a crença religiosa alheia, mas enfim né ), e mesmo por quem se apresenta como pagão, bruxo e wiccan! E CLARO, que respondi à altura, exigindo respeito, e deixando claro que acesso SIM a Justiça se necessário for! Esse auto-respeito é essencial a todos, pois ter um pré-conceito sobre as pessoas e sobre as coisas no geral, é algo próprio do ser humano;  todos nós temos pré-conceitos, ou seja: achamos que alguma coisa ou alguém é X, e quando de facto tomamos conhecimento de tal realidade ( ou seja, estabelecemos um conceito formado, e não mais um pré-conceito ), descobrimos que, na verdade, é Y ou Z; E tais conceitos pré-concebidos e errôneos em relação a nós ( inclusive quando são ofensivos ) são coisas que sempre vão existir, e só serão resolvidas com muito diálogo e auto-respeito: quem se dá ao respeito, quem sabe o valor que tem, e mais que isso, se respeita, já está dando GRANDES passos rumo a acabar com tal engodo.

F. Silva - Bruxas Tradicionais tem fé?

Raven - Rastreando etimologicamente, Fé advém de “fides”, no latim, origem da palavra “fidelidade”. Ser fiel a alguma coisa ou alguém é próprio do ser humano: novamente, é algo antropológico. Sendo Homo sapiens sapiens, as Bruxas Tradicionais possuem fé, sim.

F. Silva - O que seria Fé pra você?

Raven - Ainda na definição etimológica, posso dizer que é bem isso: ser fiel a alguma coisa ou alguém. E somos fiéis àquilo e àqueles que de facto  conhecemos e sabemos quem e o que são. Eu tenho Fé na minha dermatologista, por exemplo, pois ela se mostrou sagaz profissional, além de possuir uma competência humana fantástica. Eu tenho Fé nos meus amigos, pois de amigo não chamo a qualquer um, mas sim àquelas pessoas especiais, seletas e preciosas, que me amam e me respeitam por quem e pelo quê eu sou, que compartilham comigo alegrias, tristezas, dificuldades, vitórias, idéias, desejos, sonhos... e tenho Fé nos Deuses, por saber que Eles existem ( e “saber”, aqui, envolve seu radical etimológico latino “sapere”: saborear, experimentar ). Eu experiencio os Deuses, eu saboreio a Presença Deles, a Sua existência... logo, sou fiel a Eles, ou seja: tenho Fé Neles.


F. Silva - Com o Modismo da Wicca, podemos dizer que o Tradicionalismo ou a Bruxaria Tradicional está a salvo de ser algo popular? E isso seria bom ou ruim?

Raven - A Bruxaria É popular. Sempre foi. O Poder de um Bruxo habita naquilo que ele é e onde ele está, ou seja: no sangue que corre em suas veias e na terra que ele pisa. No seu sangue, estão os Ancestrais de sua linhagem; e na terra, estão os Ancestrais daquele solo, onde jazem os ossos dos que antes ali viveram, caçaram, plantaram, colheram, amaram, lutaram e morreram. Essa dualidade é muito comum entre nós, Bruxos de raiz européia vivendo aqui no Novo Mundo. Mas, aqueles que têm o sangue mesclado com os indígenas desta terra ( tal como eu, com todo o orgulho e honra pelos Ancestrais dessa Terra dos Abençoados, que é o verdadeiro significado – de origem celta – do nome Brasil ), podem vivenciar isso tanto de um ponto de vista quanto de outro. Os Domicílios daquilo a que se convenciona chamar Bruxaria Tradicional, são vários: Clãs de Bruxos Hereditários; Coventículos e Guildas Iniciáticas de Bruxos Tradicionais ( que originaram as sociedades secretas e semi-secretas ), muitas vezes associados a Confrarias de Mestres de Ofícios Práticos ( tal como anteriormente citei: sapateiros, pedreiros, alfaiates, domadores de cavalos, entre tantos outros ); e também, nas Tradições Populares, no Saber do Povo ( mais conhecido pelo anglicanismo “Folclore” ), através de Festas religiosas em louvor a determinados Santos Católicos ( que  são, em verdade, representatividades de antigas Divindades Pagãs, através do sincretismo religioso efetuado, a priori, pela própria Igreja, em seu intuito de conquistar mais fiéis entre as fileiras Pagãs; com o crescimento do poderio político-econômico-militar da Igreja, no entanto, e com as conseqüentes perseguições religiosas, foi a vez do povo Pagão se servir do sincretismo para, em primeira instância, se manterem a salvo, bem como a sua descendência; e também para  manterem a salvo os Antigos Costumes e, com isso, terem como legar a Tradição para as gerações vindouras... ).
Sendo assim, a Tradição Bruxa foi preservada e legada por inúmeros meios: Através de jogos ( e os Oráculos, tais como o Tarot, a Cartomancia com Baralho comum, entre outras Mancias efetuadas com dominós, dados, moedas, tômbola – bingo – , etc, são uma prova gritante ); Através de danças ( só entre os Lusitanos, do interior de Portugal – herdeiros de uma linhagem sanguínea e cultural anterior à invasão romana e mesmo à celta, em terras ibéricas – são incontáveis as Danças populares, de carácter apotropaico, propiciatório, que se configuram em liturgias mágico-religiosas ancestrais, repassadas de geração em geração, tais como o Vira, a Dança da Tranca, os Pauliteiros de Miranda, o Fandango, etc ); Através de brincadeiras ( tais como o pique-esconde, em que a intuição e o velho instinto caçador são enaltecidos e treinados na criança, em seu exercício de procurar seus colegas escondidos; a brincadeira do anel, em que o anel vai sendo passado aleatoriamente, de mãos em mãos, se configurando num teste de intuição oracular, que leva a criança a adivinhar nas mãos de quem está o anel; as cirandas, que são saudações ao Círculo Mágico, que é a simbologia da própria Mãe Terra, além de enfatizar o Espírito de União da Comunidade: a saudação ao Laço Sagrado de Honra, que une a Estirpe, a Tribo, e que por si era uma Divindade, tal como vemos em muitos povos antigos – e que ainda existem, mantendo suas culturas Ancestrais – tais como os Lusitanos, que veneram Bandua e Bandonga: Deidades regentes dos Laços Sagrados de Honra e de Sangue, que unem o Clã e a Tribo; entre outras tantas brincadeiras, detentoras de raízes arcaíssimas ); Através de costumes típicos das festas sazonais ( os enfeites tradicionais das aldeias nos dias de Festa, tais como os ramalhetes de giesta nas portas ou os mastros adornados com coroas de flores e fitas multicoloridas, por ocasião dos Maios – Beltane – ou as lanternas feitas com caretos: cabaças esculpidas com caretas, com velas acesas dentro e que são um costume galego e celtibérico próprio das celebrações da Noite dos Idos ou Samônios – Samhain –  e que deu origem às lanternas de nabos, batatas e beterrabas feitas pelos irlandeses, escoceses e ingleses, as quais, por sua vez, originaram – via colonização – o surgimento do costume estadunidense das lanternas de abóbora de Halloween, entre tantos outros ); Através da culinária ( as Maçãs do Amor, veeeeeeeeelhooooooo feitiço amoroso, tão comum na Festa de São João: oriunda da Noite de San Xoán, de Galiza e Norte de Portugal, continuação das velhas celebrações mágico-religiosas Pagãs do Solstício de Verão Europeu, em louvor a Belenos, Deus celta e lusitano do Sol, sincretizado com São João; bem como demais quitutes, tais como o quentão, Poção de Amor nascida de outra Poção Mágica típica dos povos ibéricos: a Queimada das Bruxas, entre outros; e por aí vai, o infindável cortejo de miríades de costumes, tradições, receitas, conjuros, simpatias, feitiços, oráculos, saberes, benzimentos, orações, invocações, pratos típicos, remédios caseiros, danças, cancioneiros, lendas, procissões, brincadeiras, etc, que compõem a Herança Mágica Popular: um dos mais antigos Domicílios da Tradição Mágica, da Bruxaria em si. Logo, mais do que dizer se é algo bom ou ruim, eu digo que a popularização da Bruxaria é factual... :)
Já a banalização é ooooooutraaaaaa história, mas como já disse uma vez: a Tradição está bem guardada, por aqueles que detém as Chaves Tradicionais. E por mais que se ventile a possibilidade de tais chaves caírem em mãos de profanos, ainda assim, confio nos desígnios dos Antigos. A chave certa, por mais que esteja diante da fechadura certa, NUNCA abrirá a porta, se estiver nas mãos erradas... trata-se de porta veeeeeeelha e manhosa, que só abre com aquele jeitinho esperto, de quem conhece os mecanismos de sua fechadura... e este tipo de pessoa, não é qualquer um... ;)


Em breve estaremos aqui, mais uma vez reunidos nessa encruzilhada do Saber...
Aguardo você no dia:
05/11/2010

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